sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A DOR DOS OUTROS

* Honório de Medeiros

Ouço e leio os relatos que me chegam de todos os cantos e fico perplexo.

São servidores públicos do Estado que estão devendo a agiotas.

Que estão devendo a bancos.

Que não têm dinheiro para pagar a conta da comida e da higiene.

Que não têm dinheiro para pagar as despesas com a escola da meninada.

Que não têm dinheiro para pagar a farmácia.

Que não têm dinheiro para pagar o transporte.

Servidores ativos, servidores aposentados.

Servidores que ganham mais, servidores que ganham menos.

Pois tanto os que ganham mais, quanto os que ganham menos, são iguais na hora de pagar suas contas, seus empréstimos, seus remédios, sua alimentação e higiene, as escolas dos filhos, suas roupas, o transporte que usam.

E a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Contas, o Ministério Público, a Justiça, nada, nada vezes nada.

Não se interessam pela dor dos outros. Fazem de conta que não é com eles.

E o Governador do Estado, nada. Nada vezes nada. 

Não se interessa pela dor dos outros. 

Mesmo se e quando a dor dos outros, às vezes, atrapalhe.

"SEU" LULA

* Honório de Medeiros          

Ali e acolá, em livros que somente alguns leem, seja por que deliberadamente os procuram, seja por um desses acasos da vida nos quais eles aparecem sem que saibamos como nem muito menos a razão, me deparo com seu nome.

Está posto em um pé-de-página, ou em algum parágrafo, incidentalmente, fugazmente.

Recentemente, ao reler a literatura norte-rio-grandense acerca da saga lampiônica em Mossoró – Raul Fernandes e Raimundo Nonato da Silva – lá estava seu nome, “en passant”, como teria dito, trazendo expressões próprias do jogo de xadrez, que amava tanto, até o cotidiano.

Foi exatamente o jogo de xadrez que me levou a conhecê-lo. Eu e vários de minha geração, a quem ele pacientemente ensinou a jogar. 

Tínhamos em torno dos oito anos e nosso mundo era muito simples: brincar no Colégio Diocesano, brincar no patamar da Igreja de São Vicente, brincar em casa nas raras vezes em que a rua nos era proibida por castigo ou doença. 

E brincar de aprender a jogar xadrez nas tardes provincianas de Mossoró, anos sessenta, na pequena casa onde Lula Nogueira - “Seu Lula” - vivia sozinho com o filho solteirão – uma figura misteriosa a quem quase nunca víamos e acerca de quem falávamos aos sussurros.

“Seu” Lula morava nessa casinha branca com área de entrada diminuta, porta e janela dando imediatamente para a sala, saleta, salinha que era de visita e jantar ao mesmo tempo. Do lado esquerdo de quem entrava dois quartos: o primeiro, com janelão para a rua, era o seu; o outro, do filho.

A sala emendava com uma pequena cozinha dela separada por uma mureta onde pontificava um filtro de água de cerâmica e um varal de madeira de empilhar pratos, meio escondidos por um pano.

Tudo muito normal, tudo muito comum, não fosse uma mesa oficial de xadrez colocada perpendicularmente à janela da sala para aproveitar a luz do sol, na qual ficavam postados, desde sempre, livros e revistas argentinas acerca do jogo, além de majestosas e manuseadas peças tipo “Stauton” para os embates enxadrísticos.

Embora possa me lembrar de “Seu Lula conversando de nossa rua, principalmente na roda de “Seu Napoleão”, onde o escutei, entre perplexo e admirado, certa vez, afirmar enfaticamente que somente morreria após a passagem do ano 2000, tais incursões eram raras.

Certo, mesmo, era passar em frente à sua casinha, fosse manhã ou tarde, e encontra-lo defronte ao tabuleiro de xadrez, mão esquerda com dedos polegar e indicador apoiando a cabeça, cigarro esquecido embora aceso entre os dedos médio e anular, enquanto a mão direita movia as peças para cima e para baixo, para um lado e para o outro, ou na diagonal, na tentativa de criar ou solucionar problemas enxadrísticos que já haviam lhe granjeado reputação nacional. 

Podia, também, ser o caso de estar, simplesmente, reproduzindo uma partida de xadrez de grandes mestres internacionais.

Depois eu, como os outros, fui embora. O mundo nos esperava. Nunca esquecemos – aqueles que fomos seus alunos – nosso professor de xadrez.

A ele ofereci, em silêncio, minha primeira medalha de ouro nos Jogos Estudantis do Rio Grande do Norte, disputando pela então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte.

Basta, ainda hoje, ver peças tipo “Stauton”, ou mesmo um tabuleiro oficial, que volto no tempo para aqueles dias já longínquos quando um menino magro, tímido, e um ancião de mãos nodosas, emoldurados pela claridade solar que ultrapassava a janela da sala e escandia a fumaça dos muitos cigarros fumados ou esquecidos, jogavam intermináveis partidas nas quais somente a profunda gentileza do professor impedia uma humilhação contínua ao aluno.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CABÉ, O PRIMEIRO CANGACEIRO NO RIO GRANDE DO NORTE E PRECURSOR DE JESUÍNO BRILHANTE (2)

Honório de Medeiros
* Emails para honoriodemedeiros@gmail.com
* Respeitemos o direito autoral. Em conformidade com o artigo 22 dLEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências, pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou.

Se o “Termo de Casamento” informa que José Brilhante estava em Martins, no Sítio Retiro, no dia 25 de novembro de 1841, com dezessete para dezoito anos, o jornal “O Cearense”, datado de 22 de abril de 1850 lhe situa, aos vinte e cinco para vinte e seis anos, em Vila Viçosa, na Serra do Ibiapaba, Ceará, metido em uma confusão acontecida em março de 1849 , da qual resultou a morte de João da Costa Silva, José Francisco de Barros, e Vicente Alves Ferreira, todos inimigos seus.

Esse acontecimento será fundamental na vida de José Brilhante e provavelmente originou-se por questões políticas, vez que a versão do “Cearense”, jornal ligado ao Partido Liberal, era contrária a do “D. Pedro II”, ligado ao Partido Conservador, que seguia o Governo Imperial.

Da sua leitura depreende-se que “Cabé” era Liberal, assim como os Alves Calado no Rio Grande do Norte.

Para situar “Cabé” no contexto político de sua época, segue texto da “HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE” :

“Nas Províncias , como reflexo das idéias e tendências desses partidos nacionais , os partidos políticos se uniam em dois agrupamentos: Nortistas (também chamados de saquaremas) e Sulistas (ou Luzias). Essas denominações locais de nortistas e sulistas, ou saquaremas e luzias, como também eram usadas, não significavam, todavia, organizações homogêneas. Com programas semelhantes e processos idênticos, não possuiam nenhuma característica fundamental. A atuação política dos mesmos estendeu-se até 1853, quando começaram a desaparecer, após a política de conciliação. As denominações locais, foram, então, pelos nomes dos partidos Conservador (originado do Nortista) e Liberal (originado do Sulista), que se mantiveram até a queda do Império.”

No mesmo ano de 1850 “Cabé” já está em Maioridade, ou seja, Martins, fugindo dos problemas existentes no Ceará, como escrivão do crime, cível e órfãos, nomeado pelo suplente de Juiz Municipal, este pessoa do Presidente João Carlos Wanderley, informa-nos o jornal “A União”, de Pernambuco, datado de 7 de setembro.

 O juiz titular da Comarca era Amaro Bezerra Cavalcanti, que estava afastado do cargo, “refugiado em um cantinho remoto da Comarca”. Como João Carlos Wanderley governou de março a maio de 1850, é nesse período que ocorre a nomeação.

É o primeiro embate entre José Brilhante, “Sulista”, e Amaro Cavalcanti, “Nortista”.

Não se pode confundir esse Amaro Cavalcanti, na verdade Amaro Carneiro Bezerra Cavalcanti, nascido em Pernambuco, em 15 de janeiro de 1825, com Amaro Cavalcanti, nascido em Caicó, em 15 de agosto de 1849. Este último foi irmão de Padre João Maria e Ministro da Justiça e Negócios Interiores do Governo Prudente de Morais. O primeiro foi Deputado Provincial em várias legislaturas e prestou relevantes serviços à campanha abolicionista, mas deixou a cena política com a proclamação do regime republicano.

Em Maioridade, diz o jornal, “Cabé”, tão logo chegou, matou um soldado do destacamento local e um paisano. Ocorreu assim: o Presidente da Província do Rio Grande do Norte, ao saber que José Brilhante era “criminoso de três mortes, mandou um reservado ao comandante do Destacamento dali para o prender”. “Cabé” matou o soldado do Destacamento e o paisano que o Comandante mandara para observar a gente que ele tinha consigo.

Em 26 de setembro do mesmo ano o jornal “A União” continuou a dar notícia das estripulias de José Brilhante:

“Consta-nos ainda da Comarca de Maioridade que o facínora José Brilhante de Alencar, ali escrivão do cível e órfãos, por nomeação dos agentes do célebre João Carlos Wanderley, depois de haver, no exercício desse cargo, além de outras muitas depredações , violentamente extorquido a um cidadão que procedia o inventário de sua falecida mulher” (...) “depois de haver se retirado para fora da cidade em conseqüência das ordens terminantes de Sua Excelência , para que fosse preso por ter certeza de seus crimes, e reunindo em torno de si muitos facínoras armados”(...) “no meio deles entrou pela cidade em busca do Tenente para o assassinar, escapando ele felizmente de ser vítima! Queria dest’arte vingar a dúplice ofensa de haver ele tentado prendê-lo de ordem do Presidente da Província...”


Foi nessa época que “Cabé” descobriu, no “Cajueiro”, a “Casa de Pedra”, refúgio depois famoso pelo uso que lhe fez Jesuíno, seu sobrinho.

CONTINUA...

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O PLANO CHINÊS PARA MONITORAR E PREMIAR O "BOM" COMPORTAMENTO DE SEUS CIDADÃOS

* Do BBCBRASIL.COM (*)

"O governo da China está testando um "sistema de crédito social". O objetivo é criar uma espécie de "ranking de confiança" da população. Oito empresas já estão participando do projeto piloto.

Imagine que todas as suas atividades e comportamentos são monitorados e pontuados em uma grande base de dados nacional: desde sua informação fiscal, até o tempo que você passa jogando videogame.

China lança avaliação Big Brother para todos os cidadãos

O cenário acima poderia ter saído do romance clássico de George Orwell, 1984, em que os cidadãos estão sempre sob vigilância de uma entidade chamada de "o grande irmão". Lembra também um episódio da série de TV Black Mirror , no qual cada atividade dos personagens rende "pontos" em um futuro distópico.

Mas não é ficção. Esta é uma política de Estado em planejamento na China.

O governo chinês está construindo um onipresente "sistema de crédito social", através do qual o comportamento de cada um dos seus 1,3 bilhão de cidadãos será pontuado em uma espécie de ranking de confiança.

Por enquanto, trata-se de um projeto piloto do qual participam oito companhias chinesas. Com a autorização do estado, elas emitem suas próprias pontuações de "crédito social".

Mas até o ano de 2020, todos os chineses estarão obrigatoriamente inclusos nesta enorme base de dados, e receberão pontuação de acordo com sua conduta.

Controle ou confiança?

Em um longo documento de 2014, o Conselho de Estado chinês explica que o plano do crédito social visa "forjar um ambiente na opinião pública em que a confiança será valorizada", acrescentando que "o sistema recompensará aqueles que reportarem atos de abuso de confiança".

A base de dados nacional concentrará uma ampla variedade de informações sobre cada cidadão. Será possível saber se uma pessoa paga seus impostos e multas em dia, se seus títulos acadêmicos são legítimos, etc.

Haverá também um grande grupo de pessoas que passará por um escrutínio ainda mais pesado, dependendo da profissão que exercem. A lista inclui professores, contadores, jornalistas, médicos e guias turísticos.

Críticos do projeto classificam o sistema de crédito social como "um pesadelo" e "orwelliano".

Mas há quem acredite que um sistema como este é necessário na China.

Os sistemas de crédito constroem confiança entre os cidadãos, defende Wen Quan, uma blogueira que escreve sobre temas de tecnologia e finanças.

"Sem um sistema, um estelionatário pode cometer um crime em um lugar e logo depois fazer o mesmo em outra região do país. Os sistemas de crédito tornam público o histórico de uma pessoa. (O sistema) construirá uma sociedade melhor e mais justa", diz ela.

Notas dadas a partir dos produtos comprados online

Uma das empresas que participa do projeto piloto é a Sesame Credit, a ala financeira do site de vendas online Alibaba, o maior do mundo hoje.

A empresa usa sua gigantesca base de dados de consumidores para criar rankings de "crédito social". A escala é alimentada pelas transações financeiras feitas com o sistema de pagamentos do Alibaba.

A companhia não divulga exatamente como calcula a pontuação de cada cliente, dizendo que se trata de um "algoritmo complexo".

De toda forma, a Sesame deixa claro que leva em conta que tipo de produtos seus consumidores compram online.

"Alguém que joga videogame durante dez horas por dia, por exemplo, seria considerado uma pessoa ociosa. Alguém que compra fraldas com frequência, por outro lado, deve ser pai (ou mãe) e seria considerado uma pessoa com um sentido de responsabilidade", disse Li Yingyun, diretor de Tecnologia da Sesame à revista chinesa Caixin , em 2015.

As autoridades chinesas monitoram o andamento do projeto piloto de forma muito cuidadosa. O sistema do governo não funcionará exatamente como o das empresas privadas, mas adotará características dos algoritmos desenvolvidos pelas empresas privadas.

Por enquanto, a participação no projeto é voluntária, mas a Sesame divulga o cadastro enfatizando os benefícios de obter um bom "crédito social". A empresa incentiva seus clientes a compartilhar a boa pontuação com os amigos e inclusive com potenciais pares românticos.

Para que serve a pontuação?

Pontuar bem no programa dá acesso a uma série de benefícios, desde descontos em hotéis ou aluguel de carros até acesso a apólices de seguro ou a obtenção mais célere de vistos.

Mas o que acontece quando a pontuação é ruim?

Esta é a parte "preocupante", segundo Rachel Botsman, autora do livro "Who Can You Trust" (algo como "Em quem você pode confiar", em uma tradução livre). A obra trata do sistema de crédito social da China.

"Se a sua pontuação de confiança cai abaixo de certo nível, toda a sua vida pode ser impactada. Desde a escola que seus filhos poderão frequentar até os empregos que você poderá escolher e o tipo de empréstimo bancário que você poderá obter", disse Botsman em um programa televisivo co-produzido pela BBC.

"As transgressões podem ter ocorrido na sua vida, mas o seu comportamento poderia ter impacto em seus filhos ou netos durante décadas", diz Botsman.

(*) https://www.terra.com.br/amp/noticias/mundo/asia/o-plano-chines-para-monitorar-e-premiar-o-comportamento-de-seus-cidadaos,236409ba15f05e8af541848f9fc8007e38619mu4.html 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DIREITO É FORÇA

* Honório de Medeiros
* Emails para honoriodemedeiros@gmail.com
* Respeitemos o direito autoral. Em conformidade com o artigo 22 dLEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências, pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou.

Em “Servidão Humana”, Somerset Maugham assim começa um parágrafo: “Dizia para si mesmo que a força era o direito” (...)

Os anarquistas, bem como os libertários, pensam da mesma forma.

Os primeiros enxergam na presença do Estado - e, por conseguinte, na do Direito - o supra-sumo do mal. Os últimos aceitam-no minimalista, ou seja, reduzido a cumprir funções mínimas embora essenciais, como a segurança e/ou a eficácia das leis, sem, no entanto, afastar essa percepção ontologicamente negativa acerca do Direito.

Na realidade o senso comum também coloca essa mesma compreensão no cérebro do povo. Para o povo a norma jurídica existe unicamente para os pobres, porque quem é rico por ela não é alcançado.

O certo é que o verdadeiro significado da presença da norma jurídica na Sociedade - a razão pela qual ela existe - é extremamente fetichizado, mascarado.

Essa situação é decorrente da própria estratégia que determina sua existência: ela existe, mas, para existir, tem de ser enxergada de uma forma que lhe permita a sobrevivência.

Um engodo, em suma. Uma manipulação.

Note-se que lei, aqui, é a norma jurídica, não aquela causal - como a da gravidade ou a da conservação da matéria. A causal existe independente da vontade do Homem; a norma jurídica é criação humana.

Assim é que, trocando em miúdos, dentre a maioria dos que escrevem livros de direito, melhor dizendo, de filosofia do direito, a lei, por exemplo, corresponde a um ideal de justiça a ser atingido e que, ao mesmo tempo, originou sua criação: o Congresso Nacional, tomado pelo mais vívido sentimento de Justiça, resolve aprovar uma lei que tem o objetivo de eliminar alguma maldade, corrigir algo errado.

Ou, para outros, a lei embora não reflita necessariamente algum ideal de justiça - porque, afinal de contas, há aquelas injustas, mas, quem sabe, necessárias - são, no entanto, resultado do Congresso, que é o resultado da vontade popular, e seriam, em assim sendo, essencialmente legítimas.

No fundo, o que se pergunta é qual a legitimidade da lei. Em que se baseiam os homens que a criam, interpretam e aplicam para exigir-lhe o cumprimento?

A resposta, hoje, mais moderna, ainda em vigor, é que a lei é resultado da vontade do povo, que a elaborou, analisou, votou e promulgou através de seus representantes, os congressistas.

Por essa linha de raciocínio, qualquer asneira que o Congresso aprove teria legitimidade, se e somente se vivermos em um regime democrático.

Esse democrático, por si só, já é questionável - afinal, eleições livres são mesmo livres? E onde os votos são comprados e a vontade do povo é manipulada através dos meios de comunicação?

Mas tal é apenas o começo da novela.

Supondo que se aceite o modelo em vigor neste País, o democrático, alegando-se que não há outro melhor, etc e tal, como se voltar contra uma lei quando ela é legal, ou seja, foi feita segundo os padrões formais, mas, no entanto, é injusta, segundo o sentimento popular?

Supostamente pressionando-se os congressistas para mudarem a lei. Essa seria a única resposta que o jogo democrático permite.

E ir por outro caminho - aquele que os “sem-terra”, por exemplo, utilizam para fazerem valer seu direito legítimo à terra?

Alguns diriam que essa não é mais uma questão jurídica, extrapola seu universo e invade o da política. Outros observariam que a lei é dura mais é lei, e mostrariam o caminho do Congresso.

Não há de faltar que diga, ao perceber que não interessa às elites resolverem o problema da terra: a força do direito é o direito da força.

E ponto final.

domingo, 19 de novembro de 2017

HISTÓRIA DA VIDA REAL

* Honório de Medeiros
Emails para honoriodemedeiros@gmail.com


Nas Seleções do Reader Digest que meu pai colecionara na década de 40 eu lia, entre menino e adolescente, uma seção cujo título era “Histórias da Vida Real”.

Não me lembro de outras “histórias”, exceto uma, que ficou permanentemente nas minhas lembranças, associada ao cheiro de papel velho e quebradiço das revistas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as moças americanas eram incentivadas a participarem do esforço comum americano escrevendo para seus compatriotas combatentes mundo afora.

Um desses soldados começou a se corresponder com uma garota do interior de um dos estados americanos do Oeste.

Passaram-se os anos e as cartas, que começaram cordiais, mas distantes, assumiram um teor cada vez íntimo, com troca de confidências, sonhos, planos e tudo quanto diz respeito a, finalmente, se transformar em correspondência amorosa.

Tudo corria perfeitamente exceto pela recusa obstinada da moça em enviar, para seu correspondente, uma fotografia e o nome da cidadezinha na qual morava.

Todas suas cartas eram enviadas da Estação Central de Trem da capital do seu Estado.

Ele argumentava dizendo que gostaria de ter, perto de si, não apenas suas cartas e tudo quanto de bom elas lhe traziam, mas, também, uma imagem para a qual pudesse olhar naqueles momentos terríveis pelo qual estava passando.

Ela lhe respondia, justificando-se, que o amor, entre eles, começara pelo espírito, e assim deveria continuar até o momento em que, finalmente, pudessem se encontrar frente a frente, e uma fotografia poderia lhe dar uma falsa impressão que a realidade viria desmascarar.

Finalmente a guerra terminou. Ele lhe escreveu para combinar o encontro e ela lhe pediu que estivesse em dia e hora marcados, na Estação Central de Trem da capital do seu Estado, quando seria reconhecida por trazer, nas mãos, um ramo de rosas vermelhas.

Seria essa única forma de reconhecê-la que ele disporia: não sabia como era ela, em qual cidade vivia, e, mesmo, se seu nome era real ou fictício.

Meio-dia em ponto o trem parou. Ele saltou e olhou, ansioso, para todos os lados. Havia poucos transeuntes na Estação.

Ninguém que parecesse ser uma moça desacompanhada portando um ramo de rosas vermelhas nas mãos. Começou sua frustração. Será que fora enganado ao longo de todos os anos? Será que tudo quanto ela lhe dissera por carta, o amor que nascera, os planos construídos, eram mentiras?

Parado, a maleta aos pés, a expressão ansiosa, ele olhava em todas as direções tentando encontrar uma explicação para o atraso, tal qual um acontecimento de última hora, um obstáculo inesperado...

O tempo passou. Uma hora depois, convicto que tinha sido iludido, ele começou a se dirigir para o guichê de vendas de passagens. Pretendia ir embora o mais rápido possível.

Quando se aproximou do guichê viu, sentada, próxima ao local, uma senhora de aproximadamente sessenta anos trazendo, em suas mãos, um buquê de flores vermelhas.

“Então é isso?”, se perguntou. “Ela é esta senhora, e por essa razão não teve coragem de me enviar uma fotografia sua?”

Parado, perplexo, pensou em se esconder – não era possível aceitar que aquela senhora fosse sua amada!

“E agora?” disse a si mesmo, “deveria honrar o amor espiritual com o qual se comprometera e que independia de idade ou poderia justificar sua fuga alegando ter sido manipulado?”

Não resistiu. Aproximou-se. “Senhora, desculpe-me, seu nome é Lucy?”, indagou usando o nome usado por ela nas cartas.

“Não, ela me pediu para ficar aqui algum tempo, com essas rosas na mão, aguardando que viessem a sua procura; ela está ali”, e apontou.

Um pouco além, vindo em sua direção, com outro buquê de rosas vermelhas nas mãos, uma belíssima mulher lhe sorria, enquanto acenava discretamente. 

AS IRMÃS MOCÓS

* Jânio Rêgo

Do alpendre víamos a luz tremulante da lamparina de pavio aceso com óleo de carrapateira, que elas mesmas fabricavam, dizia meu avô Chico Petronilo, deitado na rede.

Pela manhã, na casa, nas fruteiras do baixio, por onde estivéssemos, dava pra avistar o ponto vermelho amarronzado da casinha de taipa encravada em meio ao verde do pé da serra onde elas brocavam pequenos roçados para a precária subsistência.

A casa “das Mocós’ era tão longe aos meus olhos de menino da cidade grande do Mossoró…! e eu construía mistérios inenarráveis sobre as três mulheres que moravam sozinhas naquele mundéu inacessível.

Eram negras, solteiras e sem filhos. Rita a mais nova, Cosma a mais velha e Maria José ‘a dos peitos grandes’.

Não eram simpáticas, nem ‘politicamente corretas’, diríamos hoje, as histórias que ouvíamos e falávamos sobre elas…

Excluídas das excluídas, vivendo numa comunidade rural em meados do século passado, eram espécies de ‘bruxas’ naquela rude contemporaneidade com remanescências semifeudais e patriarcais.

Mas havia uma muda admiração da comunidade por trás de todo o estigma que carregavam e que despejavam sobre elas. Aquela autossuficiência miserável, produzindo o próprio sustento, mulheres livres, fora dos padrões, impunham o mínimo do respeito que precisavam para a convivência social sem sobressaltos.

Em outras vezes que voltei lá, elas já haviam saído do pé da serra e moravam em uma casinha igualmente pobre, mais próxima da cidade de Doutor Severiano.

Quando passávamos na estrada dava pra sentir o cheiro do fabrico do óleo que além de combustível caseiro (que a tecnologia atual transformou em ‘biodiesel’) era também usado como remédio natural para diversas enfermidades naquela época em que a poderosa (e perigosa) indústria farmacêutica ainda estava distante do sertanejo.

Naquela casa o cotidiano das três irmãs ficou mais exposto, elas se tornaram mais reais, mas nem assim desapareceu a sensação de mistério e magia que ainda hoje permanecem quando retomo a infância que nunca sai de mim.

sábado, 18 de novembro de 2017

O JUSTO NÃO ESTÁ FORA DE MIM


* Honório de Medeiros
Emails para honoriodemedeiros@gmail.com

O nominalismo de Guilherme de Ockham questionou a possibilidade de as Coisas (“a Coisa-Em-Si”, “ o Objeto”, “o Ser”, “a Realidade”) dizerem, ao Sujeito Cognoscente, aquilo que elas são (suas essências).

Ou seja, nós é que, enquanto demiurgos, ordenamos, organizamos aquilo que nossos sentidos apreendem de forma caótica, a partir do nosso conhecimento pré-adquirido (Kant, Bachelard, Popper...).

Podemos rastrear tal concepção, de certa maneira, até o relativismo sofista (Protágoras de Abdera, Antístenes versus Platão), mesmo até Parmênides.

O nominalismo também impede a fenomenologia de Bergson e Husserl e a pretensão de uma ciência cujo objetivo seja “compreender”: não é o termo “salinas” (lugar onde se cultiva sal) que me diz algo; eu é que digo algo dele, a partir do conhecimento que já possuo.

Não por outra razão a beleza desse trecho de "Romeu e Julieta", Ato II, Cena II:

"JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há em um simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservava a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.

Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira."

Não há, pois, essência a ser apreendida, Platão estava errado, os sofistas estavam certos.

Thomas Nagel (“Visão a Partir de Lugar Nenhum”; Martins Fontes; SP; 2004; 1ª edição; p. 137; nota) observa que “Chomsky e Popper rechaçaram as intransigentes teorias empiristas do conhecimento”.

Nominamos relações, processos, evanescências; não há coisas a serem nominadas.

O Justo não está fora de mim, está em mim...

* Arte: www.ebah.com.br

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

24 ANDARES EM UM PRÉDIO DE OITO

Guweiz (*)

* Bárbara de Medeiros

Essa madrugada me toquei da verdade de duas frases distintas sobre a profissão de escritor:

1. Escrever é se apaixonar.
Constantemente. O tempo todo. Por todos, por tudo, por qualquer coisa, por nada em particular.

2. Escrever é necessidade, não lazer ou ganha-pão. Descobri que escrever não é o remédio para as minhas noites insones, mas a causa delas, porque se não consigo dormir é porque algo me incomoda, e se algo me incomoda, é porque ainda não escrevi a respeito.

Eu tenho muitas noites insones, e estranhamente me pego desejando para que elas sejam infinitas.

Eu amo dormir.

Sempre me disseram que os escritores são todos loucos, afinal (número três).

Essa madrugada quero falar sobre os quase amores.

Você sabe do que estou falando.

Aqueles que nunca chegaram a ser apresentados como namorados ou namoradas, aqueles que nunca chegaram a ter o prazer – e o desafio – de explorarem cada centímetro do seu corpo e mente, aqueles que, afinal, não tiveram o tempo ou a oportunidade, ou a vontade, Bárbara, lembre-se disso, de se tornarem algo mais.

Mas você se pega desejando, na calada da noite, pelo “e se” e pelo “quase”,  e por aquele que nunca será nada mais do que um desconhecido, porque ele nunca se permitiu ser visto. E eu, que sou A Mais Curiosa Das Curiosas, analiso todas as mensagens trocadas por olhares, toques superficiais (que atingiam até os nervos mais profundos) e whats app, porque quem sabe explicar o que se esconde por trás da mente de outro ser humano?

Eu insisto e pergunto a todos o que eles escondem, sutilmente, mas acabo tendo de completar a história deles na minha mente. Ninguém nunca confiou em mim o suficiente pra me dizer.

Eu nunca confiei em ninguém o suficiente pra dizer que, todas as noites, deito na cama e contemplo o abismo.

Tenho certeza que alguns sabem, outros desconfiam, mas de que adianta se eu nunca pronunciei as palavras?

Mais cedo, assisti à noite cair e as luzes da cidade se acenderem, três ao mesmo tempo em um prédio, duas se apagaram em outro, e a sinfonia silenciosa continuou tocando por horas, tão ensurdecedora que eu pensei que estava, realmente, surda.

É melhor partir – penso eu – do que viver me perguntando o que se esconde na casa ao lado.

É melhor fugir, insisto comigo mesma, porque você nunca vai descobrir o medo mais profundo do seu professor de matemática da sétima série.

É melhor desistir, porque ela disse isso pra você e aos onze, você achou que era verdade.

JÁ FAZ SETE ANOS.

ESQUECE ISSO.

Acredite, é difícil.

É melhor render-se, afinal.

Porque tem tanta gente sofrendo no mundo, e eu sinto tudo, e eu quero chorar.

E é tanta solidão, tanta confusão, eu não sei nem por onde começar.

E eu tento ser feliz, eu juro.

Eu tento ser otimista, é sério.

Mas é tão, tão difícil quando você olha pra todos os carros passando depressa, sentada na beirada do último andar do seu edifício.

E aquele cara nunca vai saber que é a música dele que, todas as noites, lhe impede de voar. 

Arte:  https://guweiz.deviantart.com/

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

JALES COSTA

 * Honório de Medeiros                               

Em 1982 a eleição para o Governo do Estado do Rio Grande do Norte assumiu, como em todo o País, as proporções de um plebiscito: de um lado, a Democracia; do outro, a ditadura, que aos poucos se desmanchava.

Eu, João Hélder Dantas Cavalcanti, Evandro Borges, Rossana Sudário e outros colegas, tínhamos refundado o Centro Acadêmico do Curso de Direito em uma Assembleia Geral Extraordinária histórica, com a participação maciça dos estudantes que combatiam o bom combate nas esquinas do Campus Universitário, resolvemos levar à frente um projeto ousado: promover um debate entre os candidatos ao Governo do Estado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Conseguimos o apoio do Reitor Diógenes da Cunha Lima para sua realização no auditório central da UFRN.

Junto com João Hélder fomos, pessoalmente, convidar Aluísio Alves e o jovem Prefeito de Natal, José Agripino, que contrariando os conselhos dos seus principais assessores para não enfrentar uma plateia hostil e uma velha raposa com fama de grande debatedor, não hesitou: “vou ao debate!”

Tínhamos, por fim, que escolher alguém para moderar o evento: um professor respeitado pela Academia, pelos alunos, um símbolo do Brasil pelo qual lutávamos nos corredores da Faculdade. Não houve dúvidas. A decisão foi unânime e pacífica. Teria que ser Jales Costa.

Já naquela época Jales Costa era uma lenda entre os alunos do Curso de Direito, pelo seu passado de perseguido político e pós-graduado na Europa – algo ainda bastante incomum – bem como pelo incômodo que causava por suas posições politicamente avançadas, entre seus colegas reacionários ou conservadores. 

Culto, inteligente, extremamente acessível, raciocínio rápido e logicamente irreprochável – sempre a desnudar e levar ao ridículo as obviedades do senso comum -, irônico e bem humorado, nosso professor de Introdução ao Estudo do Direito, profundo conhecedor do pensamento de Hans Kelsen e de História, era muito respeitado entre os alunos do Curso.

Nunca nos deixava na mão. Contávamos sempre com ele para os seminários, debates e painéis que promovíamos.

Dono de um estilo peculiar ao escrever, sintetizava, em si, o lado noturno da poesia e o lado diurno da ciência acerca dos quais nos deu conhecimento Gaston Bachelard.

Uma petição sua era uma aula de raciocino lógico e sintético que aprisionava o leitor e o encaminhava para seu destino final, a conclusão, por uma linha reta, jamais obstaculizada via adjetivos desnecessários e figuras supérfluas de estilo.

Uma aula da saudade, como a que ministrou para a minha turma concluinte, a oportunidade de magnetizar seus ouvintes por intermédio de uma peça literária cujo conteúdo, todo expresso via trechos escolhidos a dedo da poesia canônica, era sempre a oportunidade de expressar seu perfeito domínio da forma por ele escolhida.

Anos depois de ter sido seu aluno tive o privilégio de ser seu colega de escritório. Não tenho como expressar a alegria dessa convivência. Em sua sala, às vezes se tornava difícil deixar de lado a conversa envolvente que o caracterizava, para cuidarmos do ramerrão do dia-a-dia.

Eu, especialmente, aproveitava para agregar conhecimento nas infindáveis discussões filosóficas que se prolongavam até a hora de irmos ao Café São Luís, na Princesa Isabel, centro de Natal, um dos seus hábitos diários.

Mestre e Doutor em Direito pela Sorbonne, jamais surpreendi Jales Costa em um gesto menor no que diz respeito aos títulos que possuía ou aos muitos e especiais amigos que granjeara mundo afora.

Lembro-me que uma ocasião, em um Encontro Nacional de Faculdades de Direito realizado em Natal, cuja maior estrela seria Luiz Alberto Warat, o professor argentino da pós-graduação da Universidade Federal de Santa Catarina famoso em todo Brasil, este, ao chegar, nos apresentou uma única exigência: queria ver Jales Costa que, na ocasião, convalescia de uma cirurgia.

Havia sido Secretário de Educação do primeiro governo Sarney que, naquela época, ainda infundia respeito por ter sido da “banda de música” da UDN, mas nunca falava a respeito.

Simples e reservado quanto a sua vida pessoal, nos cativava pela modéstia e altivez nas atitudes. 

Faz parte do folclore ao seu respeito entre nós, que privamos de sua amizade, o apoio incondicional, na época da Ditadura, a uma greve dos professores da Universidade para a qual seus colegas reacionários ou conservadores torciam o nariz: em reunião na Coordenação do Curso propôs, aos que boicotavam o movimento, a renúncia, por coerência moral, ao aumento salarial ao qual fariam jus caso este fosse obtido no final da luta.

Impressiono-me, ainda hoje, com a presença de Jales Costa na nossa memória. Sempre estamos recordando alguma história sua.

Foi-se muito cedo e nos deixou a impressão que sua vida transcorreu como um esquete teatral intenso, marcante, irônico e cheio de humor tais quais as suas tiradas: certa vez, chegando ao escritório, ao lhe perguntar de onde vinha, me disse que fora cortar o cabelo com “Bigode”, famoso cabeleireiro da Natal daquela época. Perguntei-lhe como fora a conversa, me lembrando da loquacidade marcante de “Bigode”. “Ele me perguntou como eu queria o cabelo. Em silêncio, lhe disse. E assim foi.”

Não à toa, às vezes me quedo perguntando a mim mesmo, testemunha da época e deste Brasil, o que nos diria Jales Costa de tudo isso que nos avassala e nos deixa perplexos.

Algo inteligente, claro; iluminador, penso; mordaz, com toda certeza.

A ele, e à falta que nos faz, faço esta singela homenagem.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CABÉ, O PRIMEIRO CANGACEIRO NO RIO GRANDE DO NORTE E PRECURSOR DE JESUÍNO BRILHANTE (1)

* Honório de Medeiros
* Emails para honoriodemedeiros@gmail.com
* Respeitemos o direito autoral. Em conformidade com o artigo 22 dLEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências, pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou.

Esta é a história de José Brilhante, o “Cabé” (1824-1873), tio materno de Jesuíno Brilhante.

José Brilhante de Alencar Sousa nasceu, segundo Gustavo Barroso[1], em Pombal, Paraíba, no ano de 1824.

Câmara Cascudo[2] corrobora essa data.

Seu pai lutara ao lado de Pinto Madeira na Revolução de 1831, mas já estava morto quando ele cometeu seu primeiro crime, aos treze anos, e fugiu para os Inhamuns, onde se livrou do processo-crime por ser de menor idade.

Em “FLOR DE ROMANCES TRÁGICOS” Luis da Câmara Cascudo nos diz que José Brilhante, apelidado de “Cabé”, casou-se com Gertrudes Franklina de Azevedo, da família Feitosa do Ceará.

“Um filho desse casal”, conta-nos ele, “Firmino Brilhante de Alencar (falecido no Açu a 9 de novembro de 1906), casado com Benvinda Alves Feitosa, é o pai do Padre Antônio Brilhante do Alencar (1873-1942), meu informante.”

Em nota ao texto de Cascudo, calcado em um “Termo de Casamento” que anexou ao “JESUÍNO BRILHANTE, O CANGACEIRO ROMÂNTICO”, e cuja cópia lhe foi fornecida pelo professor Manuel Jácome de Lima, Raimundo Nonato nos mostra que a grafia correta do nome da esposa de “Cabé” era “Francelina”:

“No Sítio RETIRO, freguezia de Martins, o Revmo. Felipe José Pessoa de Vasconcelos recebeu em matrimônio aos nubentes José Brilhante de Alencar Sousa e Gertrudes Francelina de Azevedo, o nubente de 18 anos e a nubente de 25 anos.”

Era o dia 25 de novembro de 1841.

Nesse mesmo “Termo de Casamento” consta que os pais de José Brilhante seriam o Alferes Manuel Joaquim de Souza e Maria José de Jesus.

Entretanto em “HERÓIS E BANDIDOS” Gustavo Barroso lhe atribui os seguintes pais: Bacharel Feitosa Bezerra de Menezes e uma moça da família Alencar.

É mais prudente se firmar no documento oficial.

Com o casamento da irmã viera “Cabé” para o Rio Grande do Norte, e se instalara no Cajueiro, próximo ao Tuiuiú do pai de Jesuíno, cercanias do arruado denominado “Patu”, na qual nasceu o mais famoso dos Brilhantes:

“Aos 24 dias de novembro de 1841, pelas 10 horas, no sítio Cajueiro, Freguesia de Martins, recebi com palavras de presente aos nubentes João Alves de Melo e Alexandrina do Amor Divino, brancos, ele de idade de 25 anos, filho legítimo de José Alves de Melo, já falecido e Ana Maria de Jesus, ela de 17 anos, filha legítima do Alferes Manoel Joaquim de Sousa e Maria José de Jesus, dispensados no 3º grau atingente ao 2º e no 4º atingente ao 3º duplicados, logo em presença das testemunhas Francisco Pereira da Silva e Antônio Franklin Sobreira, lhes dei as bênçãos matrimoniais, segundo Ritual Romano, que comigo se assinarão, do que para constar fiz este assento. Pe. Antônio Alves Pimentel[3].”

Da leitura desse documento conclui-se o seguinte: 1) o pai de Jesuíno Brilhante casou-se com a irmã de José Brilhante um dia depois que este se matrimoniou; 2) os pais de José Brilhante e Alexandrina, que eram irmãos, não são aqueles apontados por Gustavo Barroso.

CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA.

[1] “HERÓIS E BANDIDOS”.

[2] “FLOR DE ROMANCES TRÁGICOS”. 

[3] “JESUÍNO BRILHANTE, O CANGACEIRO ROMÂNTICO.” 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

EVOLUÍMOS GRAÇAS À LUTA DO BEM CONTRA O MAL

Edward Osborn Wilson (*)

ENTREVISTA - 20/03/2013 (**)

Edward O. Wilson: "Evoluímos graças à luta do bem contra o mal"

O criador da sociobiologia explica sua nova tese sobre a seleção natural, resultado da tensão permanente nos seres humanos entre egoísmo e altruísmo

PETER MOON 

Edward O. Wilson é considerado o maior biólogo vivo. Especialista em formigas, Wilson, nos anos 1970, criou a sociobiologia, um campo científico que estuda as sociedades dos insetos. Desde então, somou a seu pioneirismo científico na Universidade de Harvard uma brilhante carreira literária. É o único autor a ganhar um prêmio Pulitzer por um livro de biologia. O último livro lançado por Wilson – aos 83 anos, quando se pensava que não tinha mais nada a dizer – propõe uma inovadora a visão científica da evolução humana. Segunda ele, a lógica que explica a formação dos formigueiros também se aplica à humanidade. Centenas de biólogos se insurgiram contra sua teoria. Seu maior crítica foi o também escritor e cientista Richard Dawkins. "Ele não é um cientista. É um escritor de ciência", afirma Wilson.

ÉPOCA – O senhor estuda formigas. É o maior especialista no assunto. Como a biodiversidade brasileira influiu em sua carreira?

Edward O. Wilson – Vou contar um caso curioso. Cresci em Mobile, no Alabama. Desde criança, colecionava insetos e borboletas. Certo dia, em 1942, achei uma formiga que nunca tinha visto antes. Descobri que não era americana, mas brasileira, da espécie lava-pés (Solenopsis invicta). Aquelas formigas eram invasoras biológicas. Tinham desembarcado no Porto de Mobile dentro da carga de navios vindos do Brasil. Desde então, a formiga lava-pés se tornou uma praga. Ela, hoje, infesta o sul e o sudeste dos Estados Unidos. Quem primeiro identificou a invasão fui eu. Foi minha primeira descoberta científica. Só tinha 13 anos. Foi por causa da lava-pés que acabei dedicando minha vida ao estudo das formigas.

ÉPOCA – Certa vez, o zoólogo brasileiro Paulo Vanzolini, ex-diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, disse que vocês são amigos.

Wilson – Sim. Conheço Vanzolini desde 1950, quando cursávamos o doutorado aqui na Universidade Harvard, em Boston. Lá se vão 60 anos de amizade.

ÉPOCA – Vanzolini (autor do célebre samba “Ronda”) é um famoso compositor de sambas...

Wilson – Claro! Ele vivia tocando violão aqui na universidade. Vanzolini é um grande biólogo e um grande homem. É especialista nos répteis do Cerrado brasileiro. Gosto dele, mas não o vejo faz anos, desde minha última ida a São Paulo. Estive no Brasil três vezes, entre São Paulo, Rio de Janeiro e Amazônia.

ÉPOCA – Nos anos 1970, havia um programa de perguntas e respostas de sucesso na TV brasileira, o Oito ou oitocentos?. Um dos grandes vencedores foi o biólogo Mario Autuori (1906-1982), ex-diretor do Zoológico de São Paulo. Ao longo de 17 semanas, milhões de brasileiros ficaram conhecendo tudo sobre o mundo das formigas. O senhor chegou a conhecer o professor Autuori?

Wilson – Sei quem ele era, mas nunca o conheci pessoalmente. Que bom que os brasileiros puderam conhecer um pouco sobre as formigas na TV brasileira! Elas são animais fantásticos. Há 14 mil espécies. Seu estudo não tem fim. As formigas são animais que desenvolveram uma organização social fascinante, que só rivaliza com a sociedade dos cupins, das abelhas e do ser humano.

ÉPOCA – O senhor explica a evolução de sociedades animais como as formigas com o conceito de seleção de grupo. O que é isso?

Wilson – Segundo o mecanismo da seleção natural de Charles Darwin, a evolução das espécies se processa quando os indivíduos com características vantajosas à sobrevivência da espécie acasalam e transmitem tais características às gerações futuras. Essa é a seleção individual, que ocorre no nível do indivíduo. Ela não se aplica às formigas. Entre elas, quem atua é a seleção de grupo. As formigas operárias não acasalam, logo não transmitem seus genes. A única fêmea que reproduz é a rainha. Ela é mãe de todas as formigas e transmite seus genes a todo o formigueiro. Segundo a seleção de grupo, às operárias não importa que jamais reproduzam nem transmitam genes. Elas evoluíram para contribuir para a sobrevivência do formigueiro.

ÉPOCA – Em seu novo livro, A conquista social da Terra, o senhor afirma que nem a seleção individual nem a seleção de grupo se aplicam ao ser humano. Em seu lugar, o senhor propõe uma nova teoria, a seleção multinível, uma combinação da seleção individual e de grupo.

Wilson – A seleção multinível é o principal motor da evolução humana. Ela é o produto do conflito entre as escolhas egoístas da seleção individual e as escolhas altruístas da seleção de grupo.

ÉPOCA – Como assim?

Wilson – A condição humana é produto da história, não apenas dos últimos 6 mil anos, mas de milhares de milênios. Cerca de 2 milhões de anos atrás, na África, nossos ancestrais do gênero Australopithecus tinham uma dieta vegetariana. Aos poucos, como comprovaram os paleontólogos, aqueles primatas foram tomando gosto pelo consumo de carne. A transição de uma dieta vegetariana para outra carnívora não poderia ocorrer em bandos de caçadores que fossem sedentários, como acontece com os chimpanzés de hoje. Seria mais eficiente manter um acampamento em que as mulheres pudessem tomar conta das crianças e mandar caçadores atrás da caça para alimentar o grupo. Apesar dessa divisão de tarefas, nem todos os caçadores nem todas as mulheres poderiam conquistar o direito de acasalar, ter filhos e transmitir seus genes. Mesmo assim, todos continuam contribuindo para a sobrevivência do bando.

ÉPOCA – O senhor diz que é o conflito entre altruísmo e egoísmo é o que define a condição humana.

Wilson – A seleção individual tende a promover o egoísmo e o interesse individual dentro da família, enquanto a seleção de grupo promove as características que fazem o grupo prevalecer. Entre elas, está a moral, o altruísmo, a coragem, a fidelidade e a lealdade. A seleção natural do ser humano é resultado da tensão constante entre esses dois níveis. A seleção individual é responsável pela maioria das coisas que definimos como pecado entre os seres humanos. A seleção de grupo é responsável por nossas virtudes. A generosidade, que originalmente se sobrepôs a nossos instintos egoístas mais primitivos, foi o principal ingrediente da evolução humana.

ÉPOCA – Bem e mal, direita e esquerda, capitalismo e comunismo. O que move a evolução humana é a luta constante entre ideias e sistemas econômicos e sociais antagônicos?

Wilson – Essa é uma hipersimplificação, é claro, mas há uma verdade essencial na afirmação. Sim, evoluímos graças à luta do bem contra o mal. Esse conflito tem guiado a evolução humana até hoje. Quando se pensa nisso como uma possibilidade, fica muito mais fácil descobrir como surgiram as contradições da mente humana, de onde vem a consciência e por que parece impossível viver em paz com nosso semelhante, quanto mais viver em paz com nossa própria consciência. Sei que essas afirmações são um grande salto para a psicologia – e que não são nem um pouco científicas. Na minha opinião, nossa espécie é fruto de pressões evolutivas individuais e coletivas. Juntas, elas criaram o conflito entre os melhores e os piores sentimentos da natureza humana.

ÉPOCA – Como pode comparar formigueiros com tribos e nações? Somos animais racionais dotados de cultura, não insetos.

Wilson – Seria um erro comparar formigas com humanos. O que comparei foram apenas os eventos na seleção natural que contribuíram para a evolução de formigas e do ser humano. As formigas vivem em sociedades extremamente complexas. Antes da evolução do ser humano, a sociedade das formigas era a mais avançada do planeta. A vida em sociedade evoluiu apenas 17 vezes durante os 4 bilhões de anos da história da vida na Terra. Entre as dezenas de milhões de espécies extintas e os milhões de espécies viventes, só 17 passaram a viver em sociedade. É o caso do homem e das formigas, mas também das abelhas e dos cupins. Homens são totalmente diferentes de formigas, mas as pressões adaptativas que levaram à evolução dos formigueiros podem ser comparadas às pressões instintivas que desembocaram na civilização humana.

ÉPOCA – Sua teoria da seleção multinível aplicada ao homem é rechaçada por centenas de cientistas. O senhor é acusado de ter uma visão reducionista e simplificadora da condição humana.

Wilson – Na ciência, quando são feitas perguntas importantes e se descobrem respostas originais, elas sempre causam controvérsia. Na minha carreira fui abençoado por contar com inimigos brilhantes, como o biólogo James Watson (ele descobriu, com Francis Crick, a molécula do DNA) e o paleontólogo Stephen Jay Gould. A crítica é parte essencial do método científico. Nos anos 1960, quando um grupo de biólogos – entre eles, eu – propôs que a cultura influencia a evolução de nossa espécie, os antropólogos se insurgiram. Disseram que estávamos loucos, que era impossível e que os genes não guardam relação alguma com a cultura. Hoje, ninguém mais duvida de que a cultura influencia a evolução biológica do Homo sapiens.

ÉPOCA – O biólogo inglês Richard Dawkins é seu crítico mais ferrenho. Ele afirma que ninguém aceita sua teoria, que o senhor não reconhece esse isolamento e, por isso, sofre de uma “arrogância absoluta”. Ele defende a tese de que seu livro seja “ignorado e jogado no lixo”.

Wilson – (Gargalhada) Desculpe-me por rir. Richard Dawkins não é um cientista. É um escritor de divulgação científica. Ele só escreve sobre o que os outros descobrem. Dawkins já foi cientista. Ele não entra num laboratório nem publica um trabalho científico há muitos anos. Ao criticar minha teoria, ele mostra seu total desconhecimento da teoria evolutiva. Repete o que seus amigos dizem. Ele não sabe o que fala. Dawkins está muito contrariado, porque o conteúdo de vários livros seus sobre a evolução humana perdeu o sentido ao não levar em conta a seleção multinível. Não gosto de desmerecer um escritor de sucesso como Dawkins, mas, ao criticar-me, ele foi muito além de sua própria capacidade de análise.

(*) Arte: www.theguardian.com
(**) Em http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2013/03/edward-o-wilson-evoluimos-gracas-luta-do-bem-contra-o-mal.html